“Há 237 anos, Tiradentes foi enforcado por se opor a uma carga tributária de 20%. Hoje, o brasileiro é enforcado com até 80%”

Presidente da FCDL-MS usa tribuna da Câmara Municipal de Campo Grande para apresentar o Dia Livre de Impostos 2026, alertar vereadores sobre a fuga de empresas do Brasil e entregar anteprojeto de educação financeira para as escolas municipais

A presidente da Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas de Mato Grosso do Sul (FCDL-MS), Inês Santiago, usou a tribuna da Câmara Municipal de Campo Grande nesta terça-feira (26) trazendo um contexto que marcou a história do país e que ainda se repete diariamente: “Há 237 anos, Tiradentes foi enforcado por se opor a uma carga tributária de apenas 20%. Hoje, todo brasileiro é enforcado com uma carga tributária que representa até 77%, 80%, a depender do tipo de produto ou serviço.”

Os dez minutos na tribuna foram usados para apresentar aos vereadores o Dia Livre de Impostos 2026, que acontece no dia 28 de maio, e expor dados concretos sobre o impacto da tributação no cotidiano do trabalhador campo-grandense. Além disso, também entregou à Casa um anteprojeto de lei que propõe a criação da disciplina de Educação Financeira e Tributária nas escolas municipais de Campo Grande. Ao final, vereadores de diferentes partidos parabenizaram a iniciativa e se manifestaram em apoio à causa.

Não é contra imposto, é contra o desperdício

Inês deixou claro desde o início que a entidade não prega o fim da tributação. “Nosso sistema de representatividade não é contra a cobrança de impostos. Ele é contra a falta de equilíbrio, racionalidade e eficiência na aplicação desses recursos. Porque quem paga a conta, ao final, não é apenas as empresas que o nosso setor representa, mas é, sobretudo, o nosso cidadão, a nossa dona de casa, o nosso trabalhador e o jovem que está apenas começando a sua vida.”

E para mostrar que o problema não é abstrato, a presidente trouxe exemplos tirados do dia a dia de Campo Grande. Citou os R$ 191 milhões arrecadados em 2025 com a taxa de iluminação pública repassados à Prefeitura e as ruas que continuam escuras. Falou do transporte coletivo, um dos mais caros do país, que mantém o trabalhador “confinado 44 dias úteis da sua vida”. E colocou na mesa um dado sobre alimentação: “55,15% do salário líquido do trabalhador em Campo Grande é comprometido por uma mera cesta básica. Vamos falar de óleo de cozinha com 29,95% de carga tributária. Vamos falar de açúcar com 29,15% de carga tributária.”

A mensagem para os parlamentares também foi clara : “Esta Casa deve fiscalizar a aplicação desses recursos. Cada imposto arrecadado deve retornar em infraestrutura, em mobilidade, em saúde, em educação, em segurança e em oportunidade para a nossa população.”

O Brasil está expulsando suas empresas

Inês também apresentou dados sobre a fuga de empresas e investidores do país. Segundo ela, um levantamento da agência Reuters aponta que, em 2025, 1.200 grandes empresários deixaram o Brasil levando fortunas da ordem de R$ 46 bilhões. Só no primeiro trimestre de 2026, cerca de 300 médias empresas atravessaram a fronteira para o Paraguai.

“Estamos falando de empresas centenárias que lutaram nesse país, como a Lupo, com 104 anos, como a Riachuelo, como a Tramontina — uma empresa genuinamente brasileira que não suportou e foi produzir no Paraguai. Com isso, eles reduziram 40% de tributo sobre a sua operação”, alertou a presidente. “Uma pesquisa da CNI revela que 70% dos nossos empresários apontaram a carga tributária como elemento para ir embora desse país.”

As consequências, segundo Inês, são sentidas por toda a cadeia: “Menos postos de trabalho para o nosso povo. Menos tributação, menos arrecadação para o Estado. Menos geração de emprego, menos distribuição de renda.”

Anteprojeto de educação financeira nas escolas

A presidente entregou aos vereadores um anteprojeto de lei elaborado pela FCDL-MS que propõe a criação da disciplina de Educação Financeira e Tributária na rede municipal de ensino. A proposta prevê que alunos do ensino fundamental tenham, na grade curricular, conteúdos sobre organização financeira pessoal, consumo consciente, planejamento financeiro, noções de empreendedorismo e o funcionamento da arrecadação tributária no Brasil.

“Isso começa também pela educação, senhores vereadores. Precisamos preparar as nossas crianças e adolescentes para o futuro”, disse a presidente, que ainda registrou o compromisso da FCDL-MS com a fiscalização do dinheiro público: “Campo Grande arrecadou até agora R$ 759 milhões em ISS. Mato Grosso do Sul arrecadou R$ 17 bilhões em ICMS. É muito dinheiro. E esse dinheiro é do povo, é de cada um de nós. E precisa ser muito bem aplicado. Por isso, eu conto com esta Casa de Leis para cobrar e fiscalizar a boa aplicação dos nossos recursos públicos.”

Vereadores repercutem

Após a fala da presidente, os vereadores Rafael Tavares (PL), Marquinhos Trad (PV), Carlão (PSD) e Maikon Nogueira (PP) parabenizaram Inês pelo empenho em viabilizar o Dia Livre de Impostos e pelo debate levado ao plenário.

O vereador Ronilço Guerreiro (Podemos), presidente da Comissão de Indústria e Comércio da Câmara, foi além e anunciou disposição para construir projetos em conjunto. “Ninguém, nenhum empresário, quer omitir em relação ao pagamento de impostos. O que nós queremos é um pagamento justo e que esse imposto volte para a população”, afirmou. Guerreiro também destacou o papel da Casa Legislativa na geração de emprego: “Essa Casa cria políticas para o emprego. E quem emprega não é o poder público — quem emprega é a iniciativa privada.”

O presidente da sessão, vereador André Salineiro (PL), também se manifestou e reforçou o argumento da presidente com um exemplo prático: “Temos absurdos, como o imposto que recai sobre o papel higiênico, que é de 40%. O governo há muito tempo se preocupa em arrecadar e oferecer pouco à população.” Salineiro ainda ecoou a crítica ao avanço do Paraguai como destino de empresas brasileiras: “Nosso vizinho está dando uma aula no Brasil do que é executar uma política tributária justa, incentivando e capitaneando investidores para o seu país.”

Dia Livre de Impostos

A presidente Inês Santiago encerrou a participação na Tribuna agradecendo a todos os empresários que entraram na campanha. O Dia Livre de Impostos 2026 acontece em 28 de maio.

Neste dia, cada empresa escolhe ao menos um produto e zera os impostos daquele item, arcando com o custo por conta própria para mostrar ao consumidor, na prática, a diferença que os tributos fazem no preço final.

A campanha é organizada pela FCDL-MS e integra a 19ª edição nacional, coordenada pelo Sistema CNDL.

Fotos: Câmara Municipal de CG

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